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Parla!:
Sábado, Janeiro 31

O SEU OLHAR
(Arnaldo Antunes)
O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
O seu olhar seu olhar melhora...
Melhora o meu.
Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu
O seu olhar seu olhar melhora...
Melhora o meu.
O seu olhar agora
O seu olhar nasceu
O seu olhar me olha
O seu olhar é seu
O seu olhar seu olhar melhora...
Melhora o meu.
Parla!:
SE TUDO PODE ACONTECER
(Arnaldo Antunes/Paulo Tatit/Alice Ruiz/João Bandeira)
Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer
qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando
de mão dada
de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida
ainda de manhã
no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer
Parla!:
O corpo existe
e pode ser pego,
é suficientemente opaco
para que se possa vê-lo.
Se ficar olhando o ânus
você pode ver crescer o cabelo
O corpo existe
porque foi feito,
por isso tem
um buraco no meio.
O corpo existe,
dado que exala cheiro
e em cada extremidade
existe um dedo.
O corpo se cortado
espirra um líquido vermelho.
O corpo tem alguém
como recheio.
(Arnaldo Antunes)
Parla!:
Terça-feira, Janeiro 27
O GUARDADOR DE REBANHOS Alberto Caieiro
I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
É se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar
Parla!:
Instante Imaginário
Tarde a colorir pensamentos
Luau ungüento para o transitar
de fardos extensos campos
perpassados por estranhos ventos
Revoada peregrina, atenta
cava as entranhas cerebrais
de sopros cálidos retintos
ao transpor a grande porteira.
Sem fronteira portões país
no cais do porto etéreo
rescinde ao menos dessa vez
tratantes contratos internos.
Cheiro negro e zombeteiro
resvala profundezas espessas
do entrave que a faz doce
desvão que segue sozinho.
Não quer fluir o riacho
transita lento o pensamento
ainda que ventos soprem
pouco a sentir quando anoiteço.
Ligia Scholze Borges
Maringá-PR
Livro"Vórtice Atômico"
Valeu Julio!
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Domingo, Janeiro 25
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Sexta-feira, Janeiro 23
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Parla!:
Parece que o tempo não passa
que as coisas não mudam
uma redoma me envolve.
Ouço as mesms canções
que sei cantar de cor
e passo a noite embriagada
sentindo o vento me tocar.
Parece que parei no meio
e voltei pro começo
sem ter visto o fim.
As peças ficaram perdidas
no xadrez da minh'alma.
Flutuam no ar
todos os mesmos conceitos.
Eu preciso quebrar o ritmo
vencer o vício
quebrar o rito
o vidro
voar para casa...
Claudia Garrocini
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Quarta-feira, Janeiro 21
Carro seria
caminhão
se caminhasse
rente à linha tão comprida
palma da tua mão
Renasceria
madrugada
orvalhada
com sorriso bobo
feito denso furacão
Eu não teria
inocência
carestia
se tomasse o rumo certo
do teu coração
Queria mesmo retirar todo teu sangue
te fazer me amar no mangue
feito doce transfusão...
Então o carro
se transformaria
orvalho secaria
ao som dessa canção.
O sol que nasce
aurora desce agora
meu destino segue
ao toque dessa percussão.
Claudia Garrocini
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Sábado, Janeiro 17
Pelas curvas da vida
os sentimentos vão entrelaçados
Feito vagões de trem...
Claudia Garrocini
Parla!:
Leva meu carinho
em forma de lã
para lutar
com o Minotauro
dos labirintos
da sua consciência!
Claudia Garrocini
Parla!:
Domingo, Janeiro 11
DANÇO NA LUA
QUANDO ENCONTRO COMIGO
SEM GRAVIDADE
SATÉLITE SOBERBO
ME SINTO QUEBRAR
OS RITOS DA RAZÃO
Claudia Garrocini
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Importaria
se de repente
eu invadisse sua privacidade
com essa ousadia pós adolescente
de desejo, loucura e ansiedade?
Claudia Garrocini
Parla!:
SEU SOM
Não vá antes de me mostrar a lua
Nem me deixe sem saber de você
Do que você gosta e faz
Do que quer boscar enfim,
Quem sabe cê não busca por mim?
Que danço calada entre as madrugadas frias
Esperando você chegar
Quero você perto de mim
Bem perto onde eu possa sentir
Sua respiração, seu beijo, seu cheiro, seu som.
Não vá ainda você sabe que eu sou sua
Mas é você quem tem que saber
Da falta que você faz,
Talvez se você decidir
Quem sabe não decide por mim?
Que sofro calada entre as noites vazias
Com medo de vir me falar
Que precisa de mim
Que você quer sentir
Minha respiração, meu beijo, meu cheiro, meu som.
Claudia Garrocini
Parla!:
TENHO UM AVIÃO
Partida embriagada
Torneio sob o sol
E a jornada
Sopro que me aquece
aperta, a causa - vem a queda.
Verde teu olhar
Sonho pra guardar
Canto o teu que me cantou
FaçO a ponte, tento a fala
a saudade já não pode abraçar.
(Sarah Terra)
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O ECO
Pá... mais uma porta que se fecha!
O dia pára, como é longo...
A noite chega e a alegria chega junto
Um sorriso, um grito, um abraço!
Mas como estátuas, passam apressados
e o que recebo é silêncio.
Novamente uma porta se fecha
e agora é dentro de mim.
(Aline Vieira Ruivo)
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Segunda-feira, Janeiro 5
maçã POR UM LADO TE VEJO COMO UM SEIO MURCHO
POR OUTRO, COMO UM VENTRE
CUJO UMBIGO PENDE AINDA O CORDÃO PLACENTÁRIO.
ÉS VERMELHA COMO O AMOR DIVINO
DENTRO DE TI, EM PEQUENAS PEVIDES
PALPITA A VIDA PRODIGIOSA... INFINITAMENTE.
E QUEDAS TÃO SIMPLES
AO LADO DE UM TALHER
NUM QUARTO POBRE DE HOTEL. Manuel Bandeira
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soneto de fidelidade DE TUDO AO MEU AMOR SEREI ATENTO/ ANTES E COM TAL ZELO E SEMPRE E TANTO/ QUE MESMO EM FACE DO MEU MAIOR ENCANTO/DELE SE ENCANTE MAIS MEU PENSAMENTO/
HEI DE VIVÊ-LO A CADA VÃO MOMENTO/ E EM SEU LOUVOR HEI DE ESPALHAR MEU CANTO/ E RIR MEU RISO E DERRAMAR MEU PRANTO/ AO SEU PESAR OU SEU CONTENTAMENTO/
E QUANDO ENFIM, MAIS TARDE ME PROCURE/ QUEM SABE A MORTE, ANGÚSTIA DE QUEM VIVE/ QUEM SABE A SOLIDÃO, FIM DE QUEM AMA/ EU HEI DE DIZER DO AMOR QUE TIVE/ QUE NÃO SEJA IMORTAL POSTO QUE É CHAMA/ MAS QUE SEJA INFINITO ENQUANTO DURE!/ Vinícius de Moraes
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FÔSSEMOS NÓS/ O QUE DEVERÍAMOS SER/ E NÃO HAVERIA EM NÓS/ A NECESSIDADE DE ILUSÃO./ Fernando Pessoa
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